Defesa e Segurança: oportunidades em crescimento exigem enquadramento estratégico
A inovação para a Defesa pode estar a nascer fora do setor, desenvolvida por organizações que nunca se consideraram parte deste ecossistema. O reforço do investimento europeu em Defesa, Segurança e Resiliência está a abrir novas oportunidades para tecnologias de dupla utilização, mas aproveitá-las implica saber interpretar as prioridades estratégicas, escolher o instrumento de financiamento certo e posicionar a inovação para responder a necessidades concretas.

Durante muito tempo, falar de Defesa era falar de um setor relativamente fechado, especializado e distante da maioria das empresas. Um domínio associado a cadeias de valor próprias, requisitos técnicos específicos e a um conjunto restrito de operadores com histórico consolidado nesta área. Esse tempo está a mudar.
A Defesa, a Segurança e a Resiliência deixaram de estar confinadas à esfera militar. Hoje cruzam-se com temas como autonomia tecnológica, proteção de infraestruturas críticas, cibersegurança, energia, espaço, mar, mobilidade, saúde, dados, inteligência artificial, logística e capacidade de resposta das sociedades perante crises.
Num contexto europeu marcado por instabilidade geopolítica, novas ameaças híbridas e necessidade de reforçar capacidades estratégicas, a pergunta já não é apenas “que empresas pertencem ao setor da Defesa?”. A questão mais relevante é outra: que conhecimento, tecnologias e soluções já existem na economia civil e podem contribuir para a Defesa, a Segurança e a Resiliência?
É aqui que o conceito de dual-use, ou dupla utilização, ganha importância. Muitas tecnologias, produtos, serviços e competências desenvolvidos para fins civis podem ter aplicação em contextos de Defesa e Segurança. Uma solução de software pode apoiar análise de dados ou simulação; uma tecnologia de sensores pode reforçar capacidades de monitorização; uma plataforma de formação pode preparar equipas para ambientes complexos; uma solução de energia, logística, saúde, mobilidade ou gestão de risco pode contribuir para sistemas mais resilientes. O potencial existe, muitas vezes, antes de ser reconhecido.
A inovação civil como ativo estratégico
Esta mudança é particularmente relevante para empresas, startups, PME, centros de investigação, universidades e entidades inovadoras que não se veem, à partida, como parte do ecossistema da Defesa.
A experiência recente da INOVA+ no acompanhamento de projetos aprovados no âmbito do IFIC – Linha Economia de Defesa e Segurança mostra precisamente esta tendência: muitas organizações com potencial neste domínio não vinham tradicionalmente do setor da Defesa. O que fez a diferença não foi necessariamente um histórico neste mercado, mas sim a existência de conhecimento, capacidade tecnológica e potencial para adaptar soluções a novos contextos de utilização.
Este é um sinal importante para o tecido económico português. A Defesa não deve ser vista apenas como um setor de destino para quem já lá está, mas também como um espaço de oportunidade para quem desenvolve tecnologia, conhecimento e inovação noutros domínios.
Não se trata de militarizar a inovação civil. Trata-se de reconhecer que a segurança e a resiliência das sociedades dependem cada vez mais da capacidade de mobilizar conhecimento distribuído por vários setores.
Oportunidades existem, mas exigem enquadramento
A Europa está a reforçar instrumentos de financiamento, colaboração e aceleração em Defesa, Segurança e tecnologias dual-use. Programas europeus, iniciativas da NATO e oportunidades nacionais apontam na mesma direção: alargar a base de participação, integrar novos atores e acelerar soluções tecnológicas com aplicação em contextos de segurança e resiliência.
Para as organizações, estas oportunidades representam mais do que acesso a financiamento. Podem significar validação tecnológica em ambientes exigentes, entrada em consórcios internacionais, aproximação a novos utilizadores, desenvolvimento de novos casos de uso e posicionamento em cadeias de valor estratégicas.
Mas a existência de tecnologia com potencial dual-use não é, por si só, suficiente para construir um projeto competitivo. É necessário compreender prioridades estratégicas, interpretar requisitos de financiamento, identificar necessidades concretas dos utilizadores finais e demonstrar de que forma a solução proposta responde a desafios relevantes de segurança, resiliência e autonomia tecnológica.
Esta complexidade é reforçada pelo próprio enquadramento europeu. Documentos como a European Defence Industrial Strategy ou o White Paper for European Defence – Readiness 2030 apontam na mesma direção: fortalecer a base tecnológica e industrial europeia, reduzir dependências críticas, acelerar a inovação e mobilizar novos atores para responder a desafios de Defesa, Segurança e Resiliência. Essa orientação influencia diretamente os programas de financiamento disponíveis e os critérios usados para avaliar projetos.
Por isso, escolher o instrumento certo é parte da estratégia. Um projeto de investigação e desenvolvimento colaborativo em Defesa pode encontrar enquadramento no Fundo Europeu de Defesa, sobretudo quando envolve consórcios internacionais e desenvolvimento tecnológico orientado para capacidades de defesa. Uma startup ou PME com tecnologia dual-use disruptiva pode ter um ponto de entrada mais adequado em instrumentos de inovação e aceleração, como o EUDIS ou o NATO DIANA. Já projetos centrados na segurança civil, proteção de infraestruturas críticas, resposta a crises, fronteiras, cibersegurança ou resiliência societal podem encontrar enquadramento no Horizon Europe, em particular no Cluster 3 – Civil Security for Society. No plano nacional, instrumentos como o IFIC – Linha Economia de Defesa e Segurança, bem como oportunidades enquadradas no Portugal 2030, podem ser relevantes para empresas que pretendem investir, desenvolver, certificar, internacionalizar ou adaptar soluções de dupla utilização.
Esta diversidade de caminhos mostra que o financiamento não deve ser visto apenas como uma oportunidade administrativa, mas como uma decisão estratégica. Cada programa tem uma lógica própria, públicos-alvo distintos, níveis de maturidade tecnológica diferentes, requisitos de parceria específicos e expectativas de impacto que nem sempre são evidentes à primeira leitura. Um mesmo projeto pode ser forte num instrumento e pouco competitivo noutro, dependendo da forma como é posicionado, do grau de desenvolvimento da solução, do perfil dos parceiros e da ligação às prioridades nacionais, europeias ou internacionais. Num ecossistema em rápida evolução e expansão, a vantagem competitiva resulta cada vez menos da simples existência de uma tecnologia promissora e cada vez mais da capacidade de a posicionar no instrumento certo, no momento certo e com os parceiros certos.
Transformar potencial em impacto
Entrar neste domínio exige preparação. Muitas organizações não precisam de começar do zero, mas precisam de olhar para aquilo que já fazem com uma nova lente: que problema de Defesa, Segurança ou Resiliência pode esta tecnologia ajudar a resolver? Que aplicação pode ter este conhecimento num ambiente mais exigente? Que parceiros seriam necessários para transformar uma competência técnica num projeto com escala, demonstração e impacto?
É neste ponto que o apoio especializado em fundos e inovação pode ser determinante, não como substituto da competência tecnológica, mas como forma de traduzir essa competência num projeto bem enquadrado, financeiramente credível e alinhado com prioridades oficiais. Em áreas como Defesa, Segurança e dual-use, não basta identificar uma oportunidade aberta. É necessário interpretar o enquadramento estratégico, escolher o instrumento adequado, adaptar a narrativa ao programa certo e demonstrar coerência entre objetivos, atividades, orçamento, resultados esperados e impacto.
A inovação que pode contribuir para a Defesa e a Segurança nem sempre nasce dentro do setor. Muitas vezes, nasce em empresas, centros de investigação, universidades e organizações que trabalham noutros domínios, mas que têm soluções capazes de responder a novos desafios. O verdadeiro desafio está em reconhecer esse potencial, adaptá-lo ao contexto certo e transformá-lo em valor estratégico para Portugal e para a Europa.

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