“Engenho de ser Mulher no Engenho”: Um podcast que dá voz à experiência feminina nas STEM
A promoção da igualdade de género continua a ser um desafio estrutural, particularmente nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Consciente deste contexto, a INOVA+ assume um papel ativo na dinamização de iniciativas que fomentam a inclusão e a diversidade, contribuindo para um ecossistema mais justo e inovador.

Três Episódios: Três Narrativas Comuns
Competências Únicas, Valor Acrescido
Nos três episódios já lançados do podcast, o tema central surge sobre a ideia de que as mulheres trazem competências únicas para o campo profissional, principalmente em áreas dominadas por homens. Adaptabilidade, organização e comunicação são capacidades valorizadas como força motriz de setores STEM mais inovadores e resilientes. Em contextos marcados por barreiras estruturais e expectativas sociais acrescidas, estas capacidades surgem não apenas como qualidades, mas como ferramentas essenciais para navegar percursos exigentes. O testemunho de @Beatriz Lima, doutoranda em Engenharia Química e a realizar os seus estudos de investigação na área da doença de Parkinson, ilustra precisamente como estas competências são fundamentais para enfrentar a precariedade de tirar um doutoramento em Portugal na área das STEM.
Ecossistema Interligado
O conceito de comunidade empoderada surge de maneira clara ao longo dos episódios, especialmente quando as convidadas destacam a importância de rede de apoio, colaboração e solidariedade entre mulheres, inclusive em setores onde são minoria. @Raquel Sousa, Chefe de Unidade do Digital na INOVA+ com formação em Engenharia de Redes e Sistemas Informáticos, demarcou exatamente esta posição no episódio inaugural: “Se é mulher e deseja ingressar no universo das STEM, lembre-se: a resiliência não significa carregar o peso do mundo sozinho. Pelo contrário, significa colaborar, apoiar e crescer juntas”.
Abordagem Estrutural e Sistémica
Por fim, a questão das culturas organizacionais e da liderança inclusiva é um tema também subjacente a todos os episódios. A liderança inclusiva é vista como um catalisador importante para transformar ambientes de trabalho que ainda são marcados por desigualdade de género. @Ana Xavier, no terceiro episódio, sublinha como experiências positivas de trabalho, em início de carreira, têm influência na retenção de jovens mulheres e na mobilização de um setor mais resiliente com impacto social e ambiental.
As conclusões dos episódios, ainda que demarquem experiências únicas e igualmente relevantes de mulheres nas áreas STEM, não devem ser utilizadas para sustentar teorias ou perceções sobre o estado atual da representação e igualdade de género nas STEM em Portugal. Antes, permitem salientar o valor de espaços diversos na resiliência dos setores predominados por homens, e de fatores facilitadores de representação feminina nas STEM.
Porém, as conversas enfatizam, ainda, discursos e perceções, frequentemente inconscientes, relativas ao género, aparentemente imunes ao tempo, dificultando a mudança nas dinâmicas de poder e na construção de espaços mais participativos.
Desconstrução ou Reprodução das Normas Sociais?
Falha na Representação da Intersecionalidade
Nenhuma das mulheres convidadas, apesar da diversidade das áreas representadas, provém de um contexto vulnerável, descredibilizador ou sem representação, o que limita a amplitude da experiência feminina retratada nos episódios. Estes, não demonstram de forma realista, como várias formas de opressão influenciam percursos educativos e profissionais de mulheres nas STEM. Pelo contrário, denotam como o privilégio molda experiências de vida.
Esforço Individual
Os três episódios, ainda que encorajem a necessidade de mudança sistémica, salientam, no seu discurso, a resiliência e capacidade de adaptação das mulheres num percurso bem-sucedido nas STEM. A retórica é muitas vezes colocada na mulher enquanto agente da mudança e de uma força quase visceral para alcançar o que quer.
Normas de Género Internacionalizadas
Por fim, deixa-se uma reflexão relacionada com um padrão encontrado no podcast com as convidadas em cargos de liderança, gestão e chefia de equipas – áreas maioritariamente compostas pelo género masculino. Ainda que, na experiência e perceção das convidas, o género não tenha influência nas sua formas de liderança, as normas de género são frequentemente interiorizadas no nosso inconsciente. Isto, leva a que muitas mulheres, ao não se aperceberem, acabem por perpetuar, na sua conduta, códigos e comportamentos esperados pela sociedade e pelas estruturas de poder masculinas.
As campanhas “Sim, Ela Pode” e “#MindTHE_GAP”, as redes que dão vida ao podcast, abordam os padrões elencados acima, através da sensibilização da comunidade civil, representantes da educação e do mercado de trabalho para o impacto de crenças e papéis de género, e a construção de políticas inclusivas que, desafiando estas mesmas normas, promovem um ambiente STEM mais diverso e resiliente.
Próximos Passos
Após esta primeira série de episódios centrada na indústria STEM, o podcast evoluirá para novas conversas focadas no papel das políticas de igualdade na educação e nas organizações. O objetivo é estabelecer uma ponte: onde e até que ponto é que as experiências de mulheres na indústria são influentes do meio que as rodeia?

