Europa retoma a corrida às armas: Que papel para as empresas?

Como o tecido empresarial nacional pode responder às necessidades e oportunidades na Inovação em Defesa
EDF

Recentemente, ficámos a saber que a Tekever atingiu, na sua última ronda de financiamento, o estatuto de “unicórnio”, ao ser avaliada acima do bilião de euros. Junta-se assim a um clube exclusivo de empresas portuguesas onde estão nomes como a Outsystems ou a Sword Health, e já não estão outras como a Farfetch.

Durante os últimos anos, parecia claro que, para aceder a este clube mítico, era necessário estar no negócio das aplicações digitais. Mas a Tekever mostrou que as coisas mudaram e que uma empresa transformadora também pode entrar. Ou seja, que afinal este clube não é só para “yuppies”, mas também, de certa forma, para “old money”.

É claro que a Tekever não é assim tão velha (foi criada em 2001), nem é uma empresa de transformação qualquer. Faz drones, e hoje é com drones que se faz a guerra — como vemos todos os dias nas notícias. O aumento do interesse dos investidores na empresa, que fez disparar a sua avaliação, é, portanto, o resultado do despertar da Europa para a nova realidade geoestratégica. Uma realidade que não parece augurar nada de muito bom no longo prazo, mas que traz desafios interessantes para as empresas europeias no curto prazo.

Reindustrialização e investimento estratégico na inovação em defesa

Como resultado deste novo contexto, os países europeus estão a apostar em políticas de reindustrialização, relocalização e controlo tecnológico — especialmente em setores estratégicos como a energia, os semicondutores e o digital. Estão também a reforçar a capacidade própria de inovação tecnológica, suportada por maior investimento público e protecionismo industrial.

A nível europeu, preparam-se estratégias massivas de investimento em capacidade de inovação e produção para a defesa e segurança, através do Fundo Europeu de Defesa e do plano ReArm Europe / Readiness 2030.

Estes investimentos públicos reforçados não serão, obviamente, apenas para drones, munições ou botas do exército — embora tudo isto seja necessário e vá beneficiar empresas industriais que pareciam ter saído de moda, como já aconteceu com a Tekever. Num contexto de guerras cada vez mais tecnológicas, a maioria dos investimentos será canalizada para aplicações de inteligência artificial, sistemas de eletrónica e controlo, materiais resistentes e áreas de investigação aplicada que possam gerar disrupções científicas ou técnicas e criar vantagens competitivas.

Um maior investimento público na economia — de forma mais diversificada e não apenas concentrado em tecnologias de ponta — será positivo não só para setores industriais, mas para todas as empresas inovadoras nos seus respetivos setores. Ainda que pareça seguro que veremos menos apps para comprar roupas de luxo (mas, infelizmente, também menos para o combate às alterações climáticas ou promoção de comportamentos sustentáveis) e mais para cibersegurança ou sistemas de defesa.

Uma nova era para os programas europeus de inovação

O novo programa europeu de apoio à investigação, desenvolvimento e inovação — sucessor do atual Horizon Europe — dará mais um passo na direção do mercado. Irá transformar-se num programa focado na competitividade, afastando-se do financiamento à investigação básica que esteve na sua origem, e procurando financiar todo o processo industrial, desde a inovação ao fabrico.

Isto é benéfico para as empresas, que verão aumentar as suas fontes de financiamento, incluindo para atividades produtivas até aqui pouco apoiadas por fundos públicos.

Os programas nacionais inevitavelmente seguirão o mesmo caminho, aumentando o apoio a atividades mais próximas do mercado, como demonstração, fabrico e até a comercialização de equipamentos e soluções com aplicação nas áreas da defesa, segurança, mobilidade, construção, saúde, entre outras.

Oportunidades para (quase) todos os setores

Esta transformação profunda dos apoios públicos trará imensas oportunidades para as empresas que se souberem posicionar e aproveitar estes novos programas para inovar, melhorar, escalar e internacionalizar os seus produtos.

O esforço de rearmamento e autonomia envolve praticamente tudo — desde fio para coser botões em fardas até algoritmos de inteligência artificial — e pode incluir empresas de todos os setores, mesmo aquelas que até aqui se julgavam à margem das prioridades de desenvolvimento nacionais ou europeias.

Portugal conta atualmente com cerca de 380 empresas com atividade na defesa, representando uma faturação de 4,75 mil milhões de euros e 2% das exportações nacionais. Este setor é composto maioritariamente por empresas tecnológicas, empregando cerca de 40 mil pessoas, com salários quase o dobro da média nacional (1.595€ vs. 808€). Estas empresas fornecem componentes de alto valor acrescentado — como software, engenharia e integração de sistemas — a gigantes como Rheinmetall, Urovesa, General Dynamics, Airbus ou Embraer.

Mas o esforço acrescido de rearmamento europeu poderá abranger muitas mais empresas nacionais, de setores como têxtil, saúde, metalomecânica, TIC, aeroespacial ou engenharia de precisão. Para isso, é necessário apostar em tecnologias de dupla utilização (civil e militar), formar parcerias com clusters europeus e investir na certificação para ganhar visibilidade e confiança internacional.

Pode bem surgir um novo unicórnio português de setores inesperados — desde que saiba fazer melhor e mais depressa do que os seus concorrentes.

A INOVA+ pode apoiar as empresas neste novo contexto, ajudando a identificar oportunidades de financiamento, desenvolver candidaturas e estabelecer parcerias estratégicas para projetos de inovação com aplicação nos domínios da defesa e segurança.

O equilíbrio entre inovação em defesa e sustentabilidade

Em resumo, a corrida às armas na Europa não será necessariamente má para as empresas — como nunca foi no passado — e pode ser particularmente interessante para as empresas industriais. No entanto, a gestão dos apoios públicos será crucial. O financiamento destes novos investimentos tem de vir de algum lado. Não serve de nada anunciar novos apoios às empresas se, para tal, for necessário manter ou agravar a já pesada carga fiscal sobre o tecido empresarial — especialmente em Portugal — que afeta principalmente as PME.

Também não se pode sacrificar os investimentos ainda incipientes em sustentabilidade e no combate às alterações climáticas, uma ameaça tão certa e iminente como qualquer conflito.

O equilíbrio entre aumento do investimento público em defesa e noutras áreas fundamentais, por um lado, e a necessidade de reformular a carga fiscal das empresas, por outro, só será possível com uma otimização do Estado, uma forte coordenação entre áreas de governança e uma melhoria na eficiência dos serviços públicos — que permita fazer mais com menos. O que, por sua vez, abre outro tipo de desafios e oportunidades para empresas inovadoras — mas isso ficará para outro artigo.