Inovar no Interior: o potencial dos territórios mede-se pela estratégia, não pela geografia

Durante muitos anos, os territórios do interior foram frequentemente associados a conceitos como isolamento, baixa densidade ou perda de competitividade. Esta visão continua, por vezes, a alimentar a ideia de que a inovação acontece sobretudo nos grandes centros urbanos, onde existe maior concentração de empresas, universidades, talento e investimento.

Mas esta é uma perspetiva cada vez mais desajustada da realidade

A capacidade de inovar não depende da localização geográfica de um território. Depende, sobretudo, da forma como este consegue reconhecer os seus recursos distintivos, mobilizar os seus agentes e construir uma visão estratégica para o seu desenvolvimento.

O verdadeiro fator diferenciador

Muitos dos territórios do interior enfrentam desafios demográficos, económicos e de acessibilidade, mas dispõem igualmente de ativos únicos que podem constituir uma base sólida para processos de inovação e criação de valor. Património natural e cultural, «saber-fazer», recursos endógenos, qualidade ambiental e paisagística ou modelos de governação de proximidade são apenas alguns exemplos de vantagens competitivas que dificilmente podem ser replicadas noutros contextos.

O desafio passa por transformar estes recursos em oportunidades.

Para isso, torna-se essencial adotar estratégias de desenvolvimento territorial de base local (place-based), capazes de valorizar a especialização inteligente de cada território e de potenciar as suas características diferenciadoras. Estas estratégias ganham particular força quando são construídas de forma colaborativa, envolvendo entidades públicas, empresas, instituições de ensino e investigação, associações e comunidades locais.

A inovação constrói-se em rede

As redes colaborativas assumem, neste contexto, um papel determinante. São elas que permitem reforçar capacidades, atrair conhecimento, criar massa crítica e desenvolver soluções inovadoras que respondam às necessidades concretas de cada território.

Na Região Centro, os PROVERE – Programas de Valorização Económica de Recursos Endógenos constituem um exemplo particularmente relevante desta abordagem. Enquanto instrumento de desenvolvimento territorial dirigido aos territórios de baixa densidade, os PROVERE demonstram que é possível gerar inovação a partir da identidade dos lugares, dos seus recursos e da capacidade de mobilização dos diferentes agentes do território.

Iniciativas como as Aldeias do Xisto, as Aldeias Históricas de Portugal ou as Aldeias de Montanha ilustram bem esta lógica. Mais do que marcas territoriais ou destinos turísticos, representam estratégias integradas que transformam aldeias e comunidades em espaços de experimentação, inovação e criação de novas oportunidades económicas e sociais.

Apesar das suas especificidades, estas iniciativas partilham alguns fatores críticos de sucesso. Entre eles, destacam-se uma estratégia construída a partir das características do território, comunidades ativas e envolvidas, liderança política e institucional, parcerias estratégicas, trabalho em rede e capacidade para transformar recursos locais em propostas de valor diferenciadoras e competitivas.

A visão europeia para os territórios rurais

Num contexto marcado por profundas transformações, desde a transição climática e digital aos desafios demográficos e económicos, esta capacidade de adaptação será cada vez mais determinante. Os territórios que conseguirem antecipar a mudança sem perder a ligação à sua identidade estarão melhor posicionados para atrair pessoas, investimento, talento e novas atividades económicas.

Esta visão está igualmente refletida nas políticas europeias para o desenvolvimento territorial. Nos últimos anos, a Comissão Europeia tem vindo a reforçar a aposta em iniciativas como as Smart Villages, a Visão de Longo Prazo para as Zonas Rurais da União Europeia, o Rural Pact ou a New European Bauhaus, recentemente complementada pelo NEB Boost for Small Municipalities.

Embora distintas na sua natureza, todas estas iniciativas convergem numa mesma ideia: promover uma Europa mais coesa, onde a inovação não seja vista como um privilégio dos grandes centros urbanos, mas uma oportunidade acessível a todos os territórios, independentemente da sua dimensão ou localização.

Do potencial à valorização

Esta mudança de paradigma convida-nos também a repensar a forma como olhamos para o interior. Em vez de nos focarmos apenas nas suas limitações, importa reconhecer o potencial existente e criar as condições para que esse potencial se traduza em desenvolvimento sustentável, inovação e melhor qualidade de vida.

Na INOVA+, acreditamos que a inovação territorial nasce precisamente desta capacidade de reconhecer aquilo que torna cada território único, mobilizar as suas comunidades e construir redes colaborativas que transformam recursos locais em novas oportunidades. É esta visão que orienta o nosso trabalho junto de municípios, comunidades intermunicipais, associações de desenvolvimento local, entidades do sistema científico e tecnológico, associações empresariais e outros agentes do ecossistema territorial, apoiando a definição de estratégias e o desenvolvimento de soluções inovadoras que valorizam a identidade, os recursos e o potencial de valorização de cada território.

Autoria: Fábio Lourenço, Head of Territory Unit

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